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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Espertos e otários

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O esperto mudou de função. Já foi aquele sujeito “virado”, o “safa-onça”, aquele que saía de qualquer aperto, o que talvez fosse chamado hoje de inteligente funcional. Os bons pais criavam seus filhos para serem espertos, o que lhes pouparia de preocupações futuras.

Como a língua é o primeiro símbolo nacional a ser desrespeitado, esperto mudou de significado, como mudaram tendência, que era uma intenção e tornou-se moda (de futuro foi rebaixada a presente); variar que era mudança e tornou-se regra graças a um humorista; celebridade variava de célebre, importante, notório, e tornou-se sinônimo de efemeridade de fama, inútil, oco, fútil. O esperto, que era aquele sujeito que compreendia as coisas com rapidez, eficiente e prestes, tornou-se um engabelador, desonesto, vil, espertalhão. Nem por isso deixou de provocar admiração.

Não só a língua mudou, mudaram também os conceitos de ética, honestidade e moral. Mudaram os valores. O esperto tornou-se aquele sujeito que o homem comum, atrapalhado pelas obrigações legais, coagido pelo Estado, achincalhado pelas obrigações financeiras, admira por poder resolver as pendengas diárias com a facilidade que os limites morais proíbem. O esperto é a consubstanciação do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, é o símbolo máximo do individualismo antes de tudo.

Seria de somenos se a atuação do esperto resumisse-se às necessidades prementes do cidadão resolver questões sérias que afligem seu sucesso e o de suas pessoas mais próximas, como a família. Se a esperteza fosse a última tábua de salvação de um homem próximo à catástrofe pessoal. Tornou-se, porém, a regra de uma sociedade.

Dona Chica, minha esposíssima, acaba de chegar de uma temporada de 20 dias na Europa – Holanda, Bélgica e Espanha – e me relata, impressionada, como os costumes brasileiros de coletividade são tão mais simpáticos do que os europeus. Talvez por termos vivido 500 anos na penúria, reféns das vontades dos mandatários do momento e precisando matar um leão a cada dia para sobrevivermos, fugindo da pobreza, criamos laços com nossos vizinhos, nos ajudamos nos perrengues e criamos leis para solidificarem os desejos comuns, a duras penas e nem sempre respeitadas, as leis.

Criamos, por exemplo, a Lei de Defesa do Consumidor, algo que os países acima não têm, talvez pela falta de necessidade de terem. Nossos condomínios têm leis que os regem, além de estatutos e síndico, já os europeus são educados para respeitarem o espaço alheio, mas quando resolvem desrespeitá-lo o fazem sem constrangimento ou punição pública. Criamos cotas e vagas para deficientes físicos e idosos... Opa! Estas são internacionais, mas aqui novamente dos diferenciamos dos trans-atlânticos. Lá eles respeitam ou são achincalhados por seus concidadãos, sem constrangimento; aqui desrespeitamos e nossos vizinhos não nos cobram, constrangem-se de oporem-se ao esperto que resolveu seu problema desrespeitando os problemas e necessidades alheios.

Não são raros os flagrantes diários de espertos estacionando nas vagas reservadas, de órgãos públicos fechando ruas para servirem de estacionamento para as autoridades diante de repartições, de adolescentes ocuparem as cadeiras dos idosos e deficientes nos ônibus e metrôs, de gente sem escrúpulos se meterem nas filas de aposentados nos bancos e lotéricas sem o mínimo de boa vontade de cederem a vaga para o velhinho que chegou depois...

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Cidadania virou mote de campanha dos veículos de comunicação de massa para arrecadarem milhões para programas assistenciais que não prestam contas, slogan de campanhas eleitorais e palavra fácil na boca de quem repete palavras de ordem de ONG e partidos políticos.

No país dos espertos e da língua violentada, imagino que o próximo verbete a ter seu significado trocado nos dicionários será que poderá ser descrito como “otário que acha que seus direitos acabam onde começa o direito alheio”.

 

Mote dado pela caríssima @marisacruz

©Marcos Pontes

11 comentários:

  1. Amigo, aqui em São Luis-MA, sempre que vou ao supermercado ou aos shoppings, vejo esse tipo de desrespeito e pasmem, alguns "espertos" saem sorrindo de dentro de suas SUV´s (Sim são só carrões que fazem isso) ou viaturas institucionais, sob a desculpa de: "Não havia outra vaga, idoso não dirige e cadeirante muito menos" é roça.

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  2. Num país em que os líderes são os piores bandidos que esses fazem a lei e elegem os chefes ao seu bel prazer para comandar a saúde, educação, infraestrutura, segurança, economia e as maiores empresas do país, vocês esperam que tipo de atitude dos seus filhos e comandados, educação? não sejamos hipócritas, não vivemos no país do jeitinho, vivemos num país de bandidos "legais" !

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  3. Eu amigo, qdo vejo cenas assim, deixo um bilhete no para-brisa, chamando atenção.Coloco meu nome e numero do telefone.Só que até hj. ninguém teve a coragem de me ligar!!!

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  4. Estou lendo o livro 1808, de Laurentino Gomes.
    A obra aborda de maneira muito interessante vinda da corte de D. João VI de Portugal pro lado de cá do Atlântico. A certa altura do livro, somos apresentados ao panorama que o monarca luso encontrou ao chegar em nossas terras. A malandragem comentada no seu texto já estava lá, esperando a corte portuguesa chegar.

    E é impressionante perceber o quão pouco a malandragem brasileira mudou em mais de 200 anos. A data(que dadas as intensas transformações que o século XX trouxe)nos parece a anos-luz de distância, abrigava gentes tão adeptas da baixa-esperteza quanto abrigam os dias de hoje. Talvez seja algo que se desenvolveu nos 300 anos de colônia, que tenha se enraizado no DNA social tupiniquim e que só tenha chance de mudar debaixo de uma carga monumental de educação. Coisa que nossa malandríssima casta política nem quer pensar em fazer, claro.

    Pra existir malandros, precisa-se de otários, e quanto mais, para eles melhor.

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  5. Excelente texto, e o tema é muito oportuno... No Pará havia um Governador que dizia "lei é potoca", ou seja, ele queria dizer que "as benesses da lei para os amigos" e os "rigores da lei para os inimigos". As leis criam brechas exatamente para não serem cumpridas pelos maus cidadãos. Aqui no Brasil o exemplo de má cidadania são os próprios políticos, governantes, parlamentares e até membros do Poder Judiciário. O Brasil está requerendo, com urgência, um Pacto Ético e Social, com vistas a se fazer ajustes na estrutura arcaica dos Três Poderes do Estado e, a partir daí, em todo o sistema organizacional brasileiro, conforme propostas do autor de "Brasil Ético, Estado Moderno - Uma Revolução Cultural no 3o Milênio". O livro é uma usina de 1001 idéias de como modernizar o Brasil. É a minha opinião.

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  6. A gente vive uma crise moral, tanto institucional quanto pessoal. Antes de mais nada, esse "jeitinho" é imoral! Respeito? O que é isso? É de comer ou de passar no cabelo? Porque ninguém vê, ninguém tem!!

    Registro mais que perfeito, de tudo isso, no seu artigo. Imprescindível.

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  7. CARO MARCOS

    SERÁ QUE O SER HUMANO PERDEU O CAMINHO DA DECÊNCIA EM TODOS OS SENTIDOS PARA PEGAR VIELAS ESCURAS E, COM SUA ESPERTEZA IMUNDA, ABUSAR DO LIMITE NECESSÁRIO À BOA CONVIVÊNCIA?
    #TOLERANCIAZERO A TODO O MAL COMPORTAMENTO DO CIDADÃO, DOS GOVERNOS E DO SETOR PRIVADO.
    NÃO QUEREMOS IMPOR DESEJOS E SIM RESPEITO QUE É BOM E TODOS GOSTAM!

    Marisa Cruz

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  8. Lelezinha_09 (Zinha)4 de janeiro de 2012 13:55

    Caro amigo:vc apontou o problema c/ todas as letras!
    Mas o que esperar de um país,em que as próprias "otoridades",pais dos que usam esse argumento:"Vc sabe com quem está falando"? Como poderíamos corrigir isso?
    Não tenho mta esperança, e nem sei por onde deveríamos começar...
    Acho que só se o Brasil fosse descoberto de novo,e por outro tipo de pessoas...
    Gde abç

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  9. Infelizmente é o que mais se vê. Qdo uso um ônibus e vejo grávidas e idosas em pé e qualquer pessoa ocupando o lugar reservado a eles ou mesmo sentado em outro lugar, bato no ombro e falo: "Oiiiii, o que acha de ceder seu lugar? Mtos levantam sem problemas com sorriso nos lábios, outros de cara amarrada mas levantam.. Não deixo mesmo..rsss Quanto a ocupar vagas nos estacionamentos é bem comum acontecer e a gente percebe que alguns saem todos se achando os espertalhões.... Deselegância, falta de educação, reflexo de um país onde quem é corrupto se dá bem.. Aliás, neste país os bandidos estão cada vez mais protegidos...pelas leis.... Fui roubada, todos deram depoimentos, assumiram e nada aconteceu... Sabe como é, não foi em flagrante... Não vão presos e não devolvem o que nos roubam.... Tem dias que fico mto,mto p. da vida, um inconformismos toma conta do meu ser e realmente não tenho esperanças que mude alguma coisa....

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  10. Marcos, entendi o post. concordo. Aqui no Brasil o problema é a impunidade. Há leis mas não são cumpridas. Os espertos são ignorantes. E o povo brasileiro , apesar disso tudo, ainda é o mais delicado, gentil e cordial. Podem vaiar mas é como percebo sempre que viajo.

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  11. Logo logo vai faltar otários no Brasil. Os bandidos e malandros estão se reproduzindo com mais velocidade.

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