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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Do jeito que o diabo gosta

Arte Antoni-Bemi manifestação popular

Não há de ser pitonisa ou algum profeta dos cafundós para entender um tiquinho que seja. Há que se ler as notícias procurando ler o que há no subtexto e no pretexto, os segredinhos escondidos entre uma linha e outra, o inconfessável contido nas declarações e nas análises. Tem que dar uma cavucada na biografia dos articulistas. Como confiar nas boas intenções de Nassiff, PHA e outros defensores do lulo-petismo fantasiados de jornalistas democratas? Como confiar em escritor que defende a censura prévia disfarçada de marcos regulatório da imprensa? Por outro lado, como querer encontrar em Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho ou Mainardi algum rasgo de esquerdismo?

Por ter a vantagem de já me interessar por política nacional quando a barrigona de Lula, emprenhada pela direita condescendente, inacreditavelmente encabeçada por Golbery, gestava o PT, vi aquela criancinha vermelha tomar corpo, mesmo que às custas do lanche dos coleguinhas da escola – meio irônico dar alguma escola formal ao PT. Cresceu como enorme curral do qual o capataz irado, vindo lá das terras dos coronéis – e aí não vem qualquer preconceito antinordestino por seu eu próprio um nordestino desde espermatozoide e óvulo e defensor ferrenho dos costumes e gostos dessa parte do meu povo – repetiu na enorme massa que o seguia e segue a lei do reino no lombo. Sem jamais ter lido um livro, nem mesmo o Pequeno Príncipe, muito menos O Príncipe, o espírito de déspota de Lula é nato.

Lembro dos tempos em que ele calçando hipotéticas botas de cano alto, não de operário de fábrica, mas de capitão do mato, proibia seu partido de coligar-se a qualquer outra agremiação burguesa. Antes perder uma eleição com honra – mesmo que honra vermelha – do que trair os próprios princípios. Mas esse é prego por demais batido e ele próprio deu o mote quando disse, durante a campanha que lhe deu a presidência, que se coligaria até com o Diabo para eleger-se. E o diabo vinha em forma de Sarney, Maluf e o dantes arqui-inimigo Collor, sem contar com os demônios de algibeira como Dirceu, Genoíno, Ünger, Dutra, Suplicy e Marta, e mais uns tantos.

Nesse curral, as vaquinhas premiadas aprenderam suas lições inatas. Um dia rebelaram-se, foram montar seus próprios currais. PSOL, PSTU, PV e a, agora em gestação, Rede – nome apropriado a um grupo de esquerdistas que gostam de ganhar fortunas sem fazer força e xingando a fortuna alheia.

Este introdutório terminou ficando maior do que o combinado com os alemães, uma vez que foi apenas a chave para entrar na questão das manifestações que pipocam pelo país. Todas defendendo causas justas e populares, todas calcadas em argumentos insofismáveis, como a riqueza gasta na construção de estádios quando poderia ser melhor aplicada em educação e saúde públicas; o altíssimo aumento nas passagens de transportes urbanos; a violência urbana numa crescente desde 2003, mesmo a despeito de renitentes discursos que a violência é produto das diferenças sociais quando esses mesmos palestrantes afirmam que a pobreza apenas diminui nessa década e meia. O que precisa-se desarmar a população para diminuir a violência, mesmo que as estatísticas oficiais comprovem que no Nordeste, região em que mais foram entregues armas por força da propaganda enganadora, a violência tem crescido muito mais do que a média nacional, que já não é baixa.

A propósito, as manifestações vêm-se proliferando e dando certo. Devem estar fazendo brilhar os olhinhos escondidos no escuro daqueles que programaram essas ações “populares”. E quem são esses “luas pardas”? O que estão todos de acordo tácito até o momento é que não são a malfadada direita, os reacionários e golpistas opositores. Já é quase consenso que a própria esquerda está armando o mafuá, a diferença está entre as maneiras com que o público recebe as notícias: a direita fica estarrecida como o populacho deixa-se levar de roldão pela esquerda maquiavélica que atira pedras nos próprios correligionários para, quando o caldo entornar, colocar a culpa na oposição (“acuse seus opositores de fazerem aquilo que você faz”, lembram desse mandamento de Lênin?); a esquerda recebe feliz as novas dos jornais que não se furtam em culpar a polícia, a violência do estado, a ditadura dos palácios e aproveita a oportunidade de jogar a massa acéfala de manobra contra as instituições estabelecidas. A velha tática de Gramsci de destruir tudo o que há para depois tutelar a reconstrução da sociedade à sua imagem e semelhança; a juventude, a parte mais boba dessa corrente, compara-se – oh, santa cultura, Pai! – aos que derrubaram a Bastilha, aos que enfrentaram, inocuamente, os governos militares. Por falta de grandes causas que não lhes firam os brios e nem lhes deixem mal nas faculdades, hoje verdadeiros bunkers esquerdistas, preferem deixar-se manobrar tentando acreditar que estão fazendo um grande favor à população, aquela que o último governo petista decretou ser incompetente para gerir as próprias vontades e por isso tem que contar com a tutoria do estado para dar-lhe comida, casa, educar-lhe os filhos, dar-lhe transporte e terra gratuitas.

Essa mesma juventude ainda não percebeu que contribui na formação de uma horda de velhinhos que chegarão à senilidade sem aprender um ofício e sem necessidade de suar a camisa para satisfazer suas necessidades, das mais básicas aos luxos mais supérfluos a que todos temos direito e vontade de vez em quando, como um revellion em Porto Seguro ou um iphone de quinta geração. E esses futuros velhinhos viverão às custas dos impostos que os hoje universitários terão que pagar. Ainda não perceberam que seus diplomas universitários os capacitarão para melhores postos de trabalho e consequentemente a melhores salários, portanto, ao patamar de “elites” de amanhã que bancarão a aposentadoria dos ineptos em formação hoje.

Não percebe que é ela a “massa de manobra” que aprende nos bancos universitários sere o populacho explorado pelo capital maléfico. Mesmo com todas as aulas de história não aprendem que o socialismo não deu certo no mundo, e nem dará, não por culpa dos líderes socialistas que se apresentaram mundo a fora, mas por ser ele próprio, o socialismo, antinatural.

Só há evolução social porque há desigualdade, que leva à competição, ao aprimoramento, à busca de vidas melhores galgadas em bens e serviços melhores. Por sua vez, oriundos de melhor educação.

Paradoxalmente, os desiguais buscam igualar-se aos que estão melhor posicionados na pirâmide. A partir do momento que se tira da base piramidal o espírito de busca de ascensão social pelos próprios esforços, pelo serviço de suas potencialidades, condena-a a manter-se base por gerações seguidas.

Vê-se um esforço de criar um movimento de convecção social, empurrando quem está no alto para a base e elevando-se a base para o topo. De fato o que se vê é a crosta sólida do cume não ser abalada, o estrato do meio é quem vem se sacrificando para manter as benesses dos mais altos e a subida sem esforços dos mais baixos.

 

©Marcos Pontes