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domingo, 15 de janeiro de 2012

Sectários e radicais

FARINHA DO MESMO SACO

Hipoteticamente, o irmão predileto de Raimundinho se meteu num esquema de venda de notas fiscais frias para a prefeitura. No decorrer das investigações o Ministério Público vai à casa dos irmãos com um mandado de busca à procura de documentos que comprovem a ação criminosa. Raimundinho recebe os agentes públicos e sua reação vai depender de sua postura cidadã e do seu postura ideológica.

Se ele tiver uma postura radical irá entregar as provas que tem em casa voluntariamente para que a polícia apure o comprometimento do irmão, mesmo que isto leve à prisão e condenação do familiar,ou colocar-se-á contra a polícia, contra a justiça, em defesa intransigente do irmão. Se for um sectário, negará todas as evidências, mesmo que toda a argumentação legal demonstre que há envolvimento direto do irmão na ação delituosa.

O radical não transige, o sectário também não. O primeiro por ideologia, o segundo por negar-se a ver a verdade. O sectário não consegue ver nada além daquilo em que quer acreditar, enquanto que o radical, mesmo admitindo os fatos, por compromisso com uma causa, uma pessoa ou os próprios interesses, seja de que ordem forem, não dá o braço a torcer, cria argumentos, distorce os fatos e a verdade.

Um bom cidadão é o que tem compromisso precípuo com a honestidade, a probidade administrativa, a intransigência com o que for ilegal ou imoral, com o que seja prejudicial à coletividade e a favor de pequenos grupos ou indivíduos.

Durante uma campanha política, assumimos um lado. Infelizmente, no Brasil procuramos candidatos e não partidos, que se transformaram e sacos de gatos ideológicos e fisiológicos e não defensores de uma idéia e ideais comuns. Assumimos, via de regra, a postura de torcedores de futebol que não consegue ver méritos no adversário (talvez porque eles não tenham) e nem defeitos em nossos escolhidos. Nos tornamos sectários, cegos pela vontade de vencer, como se a vitória de um dos engravatados fosse sinônimo de vitória popular.

Ainda se justifica esta cegueira quando ela aparece pela vontade de mudar o que tem se mostrado imutável nesses 122 anos de República, mas sua continuidade não é benéfica.

Si hay gobierno, soy en contra, pero sin ser un anarquista. Ultimamente quem é conservador e de direita, além da obrigação moral de colocar-se contra o lixo esquerdista que nos governa e seus satélites emporcalhados, temos que vigiar sem sossego aqueles que deveriam estar fazendo oposição, mas só atuam assim até a primeira bifurcação eleitoral, quando os partidos situacionistas e pseudo-oposicionistas se encontram e as coligações e interesses bianuais se confundem. Fechar os olhos às manobras imorais da oposição não é favorecer a democracia e nem trabalhar pelo fim dos desmandos contra toda uma população que pagas a esmola dos pobres, o enriquecimento dos ricos e os desvios dos mandatários.

Que se seja radical na luta diária contra essa malta desleal, mas, jamais, sectário na defesa daqueles de quem esperávamos uma postura combativa e que se mostraram venais e insensíveis às vontades de melhoria de cada cidadão que constrói esse país fora das fileiras partidárias.

 

©Marcos Pontes

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A defesa bairrista do Bezerra

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Palocci é paulista; Lupi também é paulista; Alfredo Nascimento é amazonense; Wagner Rossi é o terceiro paulista da turma; Pedro Novais é espirotossantense com carreira política maranhense; Orlando Silva é baiano; Fernando Pimentel, que não caiu por ser xodó da presidente, é mineiro; Fernando Bezerra, pernambucano. A naturalidade desses homens pouco importa e nem foi fator determinante para sua derrocada diante das astas ministeriais que dirigiam.

Se o que importa é a falta de probidade em suas administrações e não o estado em que nasceram, por que tocar no assunto? Não fui eu quem começou, mas o líder do PT no Senado, o pernambucano Humberto Costa ao afirmar que Fernando Bezerra é vítima de preconceito contra nordestinos.

Esse tipo de defesa é inócua e já batida, tática antiga de desmerecer os acusadores ao invés de defender o acusado. Talvez Bezerra seja indefensável, afinal de contas nepotismo, improbidade administrativa, desvio de verbas, favorecimento paroquial da região onde pretende arrebanhar votos nas próximas eleições, negócios escusos do tipo comprar duas vezes o mesmo terreno, do mesmo dono, com verba pública são desvios morais e ilegalidades que não são determinadas pelo local de nascimento.

O que Humberto Costa – e faço uma força para não fazer trocadilho com seu sobrenome – fez, ao proferir esta sentença absurda, foi dar continuidade à tática esquerdista inaugurada por Lula que não perdia a oportunidade de jogar brasileiros contra brasileiros. Lula jogava ricos contra pobres, cultos contra analfabetos, patrões contra empregados, homens contra mulheres, pretos contra brancos e jamais foi molestado pela imprensa ou pelas autoridades por conta de sua diarréia verbal ao criar cisões entre brasileiros, quando, princípio elementar da presidência, deveria pregar a harmonia e colocar-se como presidente de todo o país, não somente dos grupos que lhe são simpáticos.

Mais uma vez um petista perde a oportunidade de calar-se ante o absurdo que proferiria.

Independentemente de suas convicções políticas e de seus compromissos partidários, Costa, assim como qualquer outra autoridade, teria que pregar a lisura, a honestidade e a transparência na administração da coisa pública. Rasgando a própria carne, para usar um clichê já tão usado pela politicanalha nacional, a autoridade estaria não apenas defendendo o bem comum, mas passando à população a imagem de probo e preocupado com eventuais desmandos, mas população é o que menos importa para esses senhorezinhos donos de currais eleitorais e manipuladores da opinião pública em busca da defesa dos amigos em detrimento dos cumprimentos das leis.

A bem da verdade, Costa nem precisava esforçar-se tanto. O PSB de Bezerra é o liame entre o PSDB, que deveria fazer oposição, e o PT, o atual dono das chaves do cofre. Por conta dessa amizade entre PSB e PSDB, principalmente em Minas Gerais, estado que não tem dono, como o Maranhão, mas tem um reizinho ambicioso e dissimulado, os tucanos colocaram tapete de veludo na reunião de confrades que deveria ser uma sabatina sobre o ministro suspeito. Os filhotes de FHC não apertaram Bezerra, não o forçaram à contradição, não lhe cobraram explicações convincentes. Um ou outro senador pseudo-oposicionistas demonstraram descrédito nas explicações cheias de números e obra inacabadas ou sequer iniciadas que Bezerra debulhou, por meio de transparências e língua presa. Bezerra nadou de costas em águas calmas e não me surpreenderá se mantiver-se no cargo e com apoio presidencial explícito ao contrário do apoio tácito dos tucanos que não querem colocar pedregulhos no caminho de Aécio.

A pernambuquice do Bezerra tornou-se mais importante do que sua competência e sua honestidade na defesa do pernambucano Costa e no silêncio de senadores de todas as naturalidades. Como nordestino assumo meu preconceito, não contra pernambucanos ou nordestinos, mas contra desonestos e imbecis imbecilizantes.

 

©Marcos Pontes

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

ENEM-SISU, outra boa ideia estragada

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Desde menino que ouço que os vestibulares precisavam passar por uma remodelação ou simplesmente serem extintos, que uma prova não podia ser tomada como atestado de competência de uma pessoa e tantas outras sentenças de morte desse sistema de seleção.

Fiquei velho vendo mudanças ocorrerem. Cada área de conhecimento e em algumas universidades cada curso tinha sua própria avaliação, depois os vestibulares foram unificados, prevalecendo peso maior para a disciplina base de cada curso (matemática e física para as ciências exatas, química e biologia para as biológicas e assim por diante), redação era eliminatória, redação deixa de ser eliminatória, cada universidade procurando sua fórmula de acordo com a realidade regional.

Com o número de candidatos crescendo a cada ano e o número de vagas mantendo-se constante ou aumentando insignificantemente comparativamente ao número de aspirantes, os vestibulares tornavam-se batalhas duríssimas. Cada vez mais cedo os estudantes eram obrigados a definirem o que fariam pelo resto da vida e este era e ainda é um dos fatores determinantes para o abandono ou troca de curso. Mas aí é outra história que mereceria uma análise mais profunda.

Dada à crescente razão candidatos/vagas, lá pelos anos 60 do século passado, surgiram os cursinhos que promoveram diversos enriquecimentos Brasil a dentro. Com a reforma educacional dos anos 60 a qualidade da educação pública deu início à sua depreciação, o que ainda vem ocorrendo. Governo após governo, os mandatários, gradativamente, passaram a culpar as escolas particulares pela exclusão de pobres das universidades federais, ao invés de assumirem a culpa da baixa produtividade de suas escolas, fosse por causa da baixa remuneração dos professores, pelo desaparelhamento das unidades escolares, pela pouca qualidade dos livros didáticos adotados ou pela falta de livros paradidáticos, ou pela somatória disso tudo e mais alguns fatores. O fato é que a educação pública foi, repetidamente, entregue a incompetentes políticos das relações político-partidárias-íntimas- fisiológicas dos mandatários de plantão.

Chegamos ao ENEM!

Reitores de universidades federais passaram a receber pressão do Ministério da Educação: os adotam o ENEM como processo seletivo, acabando com os vestibulares, ou sua escola teria redução de verbas. Isto me foi confidenciado pelo reitor de uma universidade federal, amigo pessoal. Para corroborar minha certeza que este reitor não mentia, poucos dias depois prepostos do MEC falam à imprensa que esta pressão não existia e quando alguém de um governo petista nega é porque existiu. É um governo pelo avesso.

Não seria um retrocesso, muito pelo contrário, seria um grande avanço se a dobradinha ENEM-SISU fosse levada a sério. Um dos maiores benefícios é não ter datas de vestibulares chocando, como passou a ocorrer nos últimos anos e que era evitado pelas Comissões Permanentes de Vestibular das universidades federais. Era comum jovens prestarem três ou quatro vestibulares e para isso se deslocarem entre cidades e estados. Com as datas não coincidindo, essa árdua tarefa era possível de ser realizada, mas era cansativa e dispendiosa, mais um motivo para o afastamento dos jovens. ENEM e SISU acabaram com isso, ótimo. Mas os defeitos também apareceram e se multiplicaram.

O conhecimento científico está sendo cada vez mais ignorado, dando espaço à ideologização dos conteúdos e a exigência pífia de conhecimentos científicos. Algumas questões de matemática da última edição do ENEM chegam a ser vergonhosas, resolvíveis por qualquer estudante mediano do oitavo ou nono ano do ensino fundamental, e qual o interesse dessa queda de exigência? Para mim a resposta é óbvia: permitir que os estudantes das sucateadas escolas públicas tenham um pouquinho mais de chance de se igualarem na disputa por vagas, mesmo já tendo a imensa vantagem das cotas, uma aberração que discrimina com o discurso de igualar.

Vejamos este exemplo:

O dono de uma oficina mecânica precisa de um pistão das partes de um motor, de 68 mm de diâmetro, para o conserto de um carro. Para conseguir um, esse dono vai até um ferro velho e lá encontra pistões com diâmetros iguais a 68, 21 mm; 68, 102 mm; 68, 001 mm; 68, 02 mm e 68, 012 mm.

Para colocar o pistão no motor que está sendo consertado, o dono da oficina terá que adquirir aquele que tenha o diâmetro mais próximo do que precisa.

Nessa condição, o dono da oficina deverá comprar o pistão de diâmetro:

A) 68, 21 mm

B) 68, 102 mm

C) 68, 001 mm

D) 68, 02 mm

E) 68, 012 mm

Ora, isto é comparação de números racionais, conteúdo do sexto ano, antiga quinta série.

Não bastasse o baixíssimo nível das questões, a mínima exigência de conhecimento científico e a ideologização das questões da área de ciências humanas, ainda há os custos absurdos, a impressão em gráficas particulares mesmo estando o parque gráfico das universidades ocioso com o fim dos vestibulares em muitas delas e a desonestidade, principalmente na correção das redações, como vem sendo mostrado timidamente por alguns órgãos da imprensa, como esta reportagem do jornal O Globo, na qual um avaliador diz que os avaliadores recebem pressão para darem nota 900 ou 1.000 para redações que mereciam 600. Com certeza essas redações supervalorizadas não são de “filhos da elite”, mas de alunos mal preparados por escolas públicas.

 

©Marcos Pontes

domingo, 8 de janeiro de 2012

Preguiça, mãe do comunismo

Fusca

Imagem gentilmente cedida pelo Fusca, feita originalmente para este post

 

Entender de economia pública não é fácil, a coisa é bem complicada, e não basta ler notícias sobre o tema todos os dias nos jornais, lá não tem definições, não se explicam as engrenagens de funcionamento, as variáveis, as consequências da subida deste índice ou a queda daquele outro. A coisa é tão complexa e cheia de achismos que mesmo os mais experientes economistas costumam divergir regularmente. Não raras são as vezes que vemos alguns deles digladiando-se publicamente, cada um defendendo suas idéias baseadas em seus conhecimentos empíricos ou em exercícios de adivinhação.

Taxa Selic, déficit primário, IGP, IGP-M, IPC, PIB, crescimento vegetativo, CADE, BNTF, ICV, IGP-DI, IPI, INCC-DI... Ufa! É muita coisa para simples mortais e informação demais para cérebros comuns e um universo paralelo para cidadãos de um país em que aritmética básica é ciência avançada.

O básico, porém, já dizia Delfim Neto, quando superministro de Figueiredo, qualquer dona de casa sabe: não se pode gastar mais do que se ganha. O que sobra depois de pagar todas as contas é lucro e este lucro é que leva à evolução econômica de uma família ou um país.

Aí vemos os defensores do fim do capitalismo baseando-se na argumentação de que esse sistema só visa o lucro. Ontem acompanhei a discussão entre Sandro Vaia, Ângela Glavam e um cidadão que ensina política na saúde, anônimo e não localizado no mapa, na qual rompia com o maniqueísmo entre lucro e prejuízo, achando essa dicotomia uma limitação de pensamento, falta de visão que entrava o progresso social e o desenvolvimento humano. Mentalidade típica de quem defende o socialismo, aquele regime que faliu de vez em 1989 justamente por colocar 17 empregados onde um faria o serviço apenas para manter os índices de desemprego nulos. Era o prejuízo de estado que inibia o desenvolvimento dos países comunistas, a comprovação prática e irrebatível que comunismo é sonho de quem não produz e vive às custas do trabalho alheio. Vide Marx, que jamais bateu prego num mamão e vivia das esmolas que a fortuna de Engels lhe dava. Agora, valem as perguntas: Engels dividiu sua fortuna com seus empregados? Ele sociabilizou os lucros de sua indústria? Fez de seus trabalhadores braçais seus sócios? Rendeu-se ao comunismo abrindo mão de seus lucros e da tão combatida mais valia odiada pelos comunistas?

Engels até tentou opor-se ao lucro, sendo expulso pela família da direção de uma de suas empresas, mas quando a coisa apertou, depois de sua ida para a Inglaterra, voltou à Alemanha, tornou-se novamente um bem sucedido empresário e com os lucros auferidos sustentou Marx, o maior sanguessuga da história, sua mulher e duas filhas, além de assumir a paternidade do filho de uma empregada engravidada por Marx, a fim de evitar o escândalo e a derrocada moral de Marx, que já não tinha moral alguma.

Não ter lucro nem prejuízo significa estagnação. Ninguém é obrigado a ter ambições, mas mesmo os que são contra o lucro – apenas no discurso, óbvio, a não ser que seja autista – há de ter consciência que tem o que tem porque alguém teve lucro antes e lhe deixou essa herança. Com prejuízo retrocede-se; estagnado não se move; o lucro leva à ascensão.

Quando o homem descobriu que podia plantar ou cultivar um rebanho, estava criado o capitalismo. Vendo sua produção crescer por conta de seus esforços e os benefícios da natureza, óbvio que o que ele plantava e alimentava deveria ser seu. Com posses poderia dar melhor vida à sua família e toda a tribo. De uma semente tirava uma espiga, de um casal de ovelhas fazia um rebanho. Estava lucrando. Com produto e lucro, criou-se o comércio.

Um inepto e preguiçoso que não quis aprender a plantar e nem se dava ao trabalho de pastorear a criação, viu-se no direito a uma parte do lucro do investidor. Achava-se merecedor de parte do que se produzia e usava o argumento ainda hoje repetido pelo vermelhinhos preguiçosos: nada é do homem, tudo é de todos, tudo é da natureza. Estava criado o comunismo.

E assim agem os mandatários ineptos, preguiçosos e desonestos. Retiram quase quarenta por cento do que o trabalhador produziu e os divide entre os preguiçosos, os ineptos, os desonestos, os deseducados e seus amiguinhos.

 

©Marcos Pontes

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Togados, de deuses a réus

Eliana Calmon e os Bandidos de Toga

Em maio do ano passado uma juíza do interior fluminense referiu-se a um subalterno como “meio funcionário. Coincidentemente ou não, o dito serventuário é deficiente físico. Hoje ela responde a processo por ofensa moral.

Não me surpreenderá se o nobilíssimo leitor estiver pensando “bem feito para ela, como pode ofender um pobrezinho?”. Eu também pensaria assim há alguns poucos anos ao ler a meia notícia que os meio jornais costumam veicular, mas este novo Brasil tem-me feito questionar um pouco mais além do que o texto diz.

Sem querer defender a digníssima excelentíssima meritíssima, e quem me conhece há algum tempo sabe o quanto me oponho a diversas atitudes e medidas de juízes e do Poder Judiciário, prefiro saber melhor dos dados da questão. Que ela foi grossa, mal educada e, como diria a Sandra Annenberg, deselegante, não resta dúvida, mas teria tido o propósito de discriminar o serventuário por sua condição física ou por sua inépcia?

Qualquer um que tenha encarado vez por outra um guichê de repartição pública vez por outra já deve ter pensado ou dito “sujeitinho incompetente”, “trabalhador de meia pataca”, “despreparado” ou coisinhas piores, como xingar a mãe, de preferência mentalmente, afinal de contas o Artigo 331 do Código Penal Brasileiro é bem explícito: “Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela:

Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, ou multa.”

Melhor engolir calado do que encarar outro funcionário público do Ministério público para se defender.

Se juntarmos todas as ditas minorias, elas tornam-se a quase totalidade da população, daí a tática de nossos dirigentes de vitimizá-las, convencendo-as de que qualquer reclamação contra um de seus componentes é ofensa grave contra toda a classe e assim posar de seus defensores gente boa, capitalizarem sua simpatia e converterem isso em voto futuramente.

Pretos, mulheres (mais de 50% da população), gays, quilombolas, deficientes físicos ou mentais, “vítimas da ditadura”, miseráveis, pobres, adictos de drogas ilegais, criminosos, ateus, traficantes... Essas minorias têm a simpatia dos políticos populistas, juntas formam que percentual do eleitorado?

No caso da juíza, o caso só veio à pauta agora, oito meses depois do ocorrido, e por quê?, me pergunto. Ouso responder: Por que a celeuma do momento é a cruzada da juíza-ministra Eliana Calmon e o Conselho Nacional de Justiça numa justa intenção de investigar, julgar e punir magistrados acusados de crimes e condutas irregulares. Muitos outros desmandos e acusações virão à tona, aumentando a antipatia respeitosa que a população nutre historicamente contra os juízes. Tomemos cuidado, pois, para não cairmos como patinhos nas armadilhas preparadas para os incautos que não lêem os subtextos e os pretextos das notícias.

Desconfio das boas intenções de Eliana Calmon, embora concorde com a necessidade mais que urgente, atrasada, de se romper os lacres da caixa preta do Judiciário. A trajetória política dela para ser alçada ao STJ não a recomenda como uma meritíssima sem rabo preso. Suas aspirações de substituir Ellen Grace no STF, anuladas por sua língua solta antes da hora alimentam sua vingança. Contudo, vejo-a apenas como mais uma componente da classe dos semideuses que devem ter seus atos mostrados sem máscaras à sociedade, mas sujeitos a julgamentos claros e justos do mesmo modo que devem ser os julgamentos que eles presidem.

 

©Marcos Pontes

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Espertos e otários

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O esperto mudou de função. Já foi aquele sujeito “virado”, o “safa-onça”, aquele que saía de qualquer aperto, o que talvez fosse chamado hoje de inteligente funcional. Os bons pais criavam seus filhos para serem espertos, o que lhes pouparia de preocupações futuras.

Como a língua é o primeiro símbolo nacional a ser desrespeitado, esperto mudou de significado, como mudaram tendência, que era uma intenção e tornou-se moda (de futuro foi rebaixada a presente); variar que era mudança e tornou-se regra graças a um humorista; celebridade variava de célebre, importante, notório, e tornou-se sinônimo de efemeridade de fama, inútil, oco, fútil. O esperto, que era aquele sujeito que compreendia as coisas com rapidez, eficiente e prestes, tornou-se um engabelador, desonesto, vil, espertalhão. Nem por isso deixou de provocar admiração.

Não só a língua mudou, mudaram também os conceitos de ética, honestidade e moral. Mudaram os valores. O esperto tornou-se aquele sujeito que o homem comum, atrapalhado pelas obrigações legais, coagido pelo Estado, achincalhado pelas obrigações financeiras, admira por poder resolver as pendengas diárias com a facilidade que os limites morais proíbem. O esperto é a consubstanciação do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, é o símbolo máximo do individualismo antes de tudo.

Seria de somenos se a atuação do esperto resumisse-se às necessidades prementes do cidadão resolver questões sérias que afligem seu sucesso e o de suas pessoas mais próximas, como a família. Se a esperteza fosse a última tábua de salvação de um homem próximo à catástrofe pessoal. Tornou-se, porém, a regra de uma sociedade.

Dona Chica, minha esposíssima, acaba de chegar de uma temporada de 20 dias na Europa – Holanda, Bélgica e Espanha – e me relata, impressionada, como os costumes brasileiros de coletividade são tão mais simpáticos do que os europeus. Talvez por termos vivido 500 anos na penúria, reféns das vontades dos mandatários do momento e precisando matar um leão a cada dia para sobrevivermos, fugindo da pobreza, criamos laços com nossos vizinhos, nos ajudamos nos perrengues e criamos leis para solidificarem os desejos comuns, a duras penas e nem sempre respeitadas, as leis.

Criamos, por exemplo, a Lei de Defesa do Consumidor, algo que os países acima não têm, talvez pela falta de necessidade de terem. Nossos condomínios têm leis que os regem, além de estatutos e síndico, já os europeus são educados para respeitarem o espaço alheio, mas quando resolvem desrespeitá-lo o fazem sem constrangimento ou punição pública. Criamos cotas e vagas para deficientes físicos e idosos... Opa! Estas são internacionais, mas aqui novamente dos diferenciamos dos trans-atlânticos. Lá eles respeitam ou são achincalhados por seus concidadãos, sem constrangimento; aqui desrespeitamos e nossos vizinhos não nos cobram, constrangem-se de oporem-se ao esperto que resolveu seu problema desrespeitando os problemas e necessidades alheios.

Não são raros os flagrantes diários de espertos estacionando nas vagas reservadas, de órgãos públicos fechando ruas para servirem de estacionamento para as autoridades diante de repartições, de adolescentes ocuparem as cadeiras dos idosos e deficientes nos ônibus e metrôs, de gente sem escrúpulos se meterem nas filas de aposentados nos bancos e lotéricas sem o mínimo de boa vontade de cederem a vaga para o velhinho que chegou depois...

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Cidadania virou mote de campanha dos veículos de comunicação de massa para arrecadarem milhões para programas assistenciais que não prestam contas, slogan de campanhas eleitorais e palavra fácil na boca de quem repete palavras de ordem de ONG e partidos políticos.

No país dos espertos e da língua violentada, imagino que o próximo verbete a ter seu significado trocado nos dicionários será que poderá ser descrito como “otário que acha que seus direitos acabam onde começa o direito alheio”.

 

Mote dado pela caríssima @marisacruz

©Marcos Pontes

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Gregório de Mattos Guerra

gregoriomattos

A Bahia não mudouem 400 anos, sempre governada por bandidos. O câncer virou metástase pelo Brasil, pela América Latina.

O poema abaixo, além de sua apresentação, foi retirado do site Releituras.

Epigrama

Gregório de Mattos e Guerra

I

Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia.

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.


O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.


Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.


Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.


Quais são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.


Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.


Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.


Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.


E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.


Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.


Que vai pela clerezia?... Simonia.
E pelos membros da Igreja?... Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?... Unha


Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.


E nos frades há manqueiras?... Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.


Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.


O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.


À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.


A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.


Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.


Gregório de Mattos e Guerra
(1633/1696), o Boca do Inferno, nascido na Bahia, foi o primeiro de nossos satíricos, homem de língua destravada e fácil veia poética. Estudou humanidades em Portugal, tendo feito o curso de leis na Universidade de Coimbra. Na terra mãe foi juiz criminal e de órfãos. Voltou ao Brasil com 47 anos, sob a proteção do arcebispo da Bahia, D. Gaspar Barata. Tantas e tais fez que não só perdeu a proteção do prelado, como ainda foi degredado para Angola. Reabilitado, voltou ao Brasil, indo para Recife, onde conquistou simpatias e viveu com menos turbulência que na Bahia. É o patrono da cadeira n.º 16 da Academia Brasileira de Letras. Além de versos satíricos e humorísticos, escreveu poesias eróticas com a maior incontinência verbal.


Texto extraído de "Antologia de Humorismo e Sátira", organizada por R.Magalhães Júnior, Editora Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1957, pág. 05.

 

©Marcos Pontes